
“Os opostos se distraem, os dispostos se atraem”, utilizo a conhecida frase da banda “O Teatro Mágico” para descrever um caso de amor vivido por dois jovens de personalidades totalmente diferentes, mas que conseguiram se adaptar aos “defeitos” um do outro e encontraram qualidades que não eram visíveis aos seus olhos por preconceitos que carregavam desde a infância. O problema é que ele sempre acreditou na existência do amor e ela sempre foi muito cética em relação a tal sentimento.
Ela curte rock, ele prefere o samba. Enquanto ela procura manter os pés no chão, ele vive sonhando como uma criança. Ela aparenta ser muito fria, ele por sua vez, exala emoção. Se dela é difícil ouvir um sim, ele já não consegue dizer não.
Ela gosta de acordar cedo, curtir o nascer do Sol, diz que dessa forma consegue aproveitar mais o dia, quando aumenta sua disposição. Ele é um adorador da noite, funciona bem melhor durante a madrugada, consegue inspiração para escrever, refletindo a vida e não deixando se abater por nada.
Os dois se cruzaram ao acaso, em uma avenida movimentada de São Paulo. Ele enxergou nela uma garota muito especial e muito bonita também, detentora de um sorriso cativante e de olhos mais verdes que os seus. Os cabelos deixaram-no sem comentários, pareciam que foram feitos para serem sacudidos em comercial televisivo de uma grande marca de shampoo. O corpo era simplesmente perfeito, todas as curvas eram proporcionais à beleza descrita até aqui. Ele passou a chamá-la de exótica desde então.
Ela o viu de relance, jura até hoje que não observou nele nada muito especial. Sua razão barra qualquer tentativa de amor precipitado que por ventura venha bater em seu peito. Ela sente a necessidade de gostar de alguém, mas ao mesmo tempo seu medo barra qualquer “ilusão” avistada pelo seu coração.
Devagarzinho ele foi se aproximando, sabia que mais cedo ou mais tarde ela enxergaria nele uma pureza jamais observada nos homens que passaram pela sua vida até então. A primeira conversa arrancou suspiros da garota, ele transmitia muita segurança na oratória, deu conselhos, riu, e aos poucos foi deixando-a segura. Ela pouco falava, morria de vergonha de olhar nos olhos dele, mas cedeu a um pedido e logo estavam de mãos dadas.
Os próximos encontros continuaram na base da conversa. O primeiro beijo saiu somente quatro dias depois, e não foi “aquele beijo” também, foi um selinho roubado por ele quando ela olhou pela primeira vez em seus olhos. A relação foi se solidificando na base da confiança, mas ambos sabiam que era melhor que tudo se encaminhasse com calma, pois vindo fácil, a probabilidade do amor ir embora na mesma facilidade era maior.
Enquanto ele se via mais envolvido, ela não conseguia acreditar em como tudo estava se desenvolvendo. Ela passou a desconfiar da situação, estava com medo de se entregar para alguém que há três semanas atrás nem sabia que existia.
Ele foi demonstrando cada vez mais sua admiração por ela, não conseguia mais tirá-la do pensamento, sua inspiração na madrugada eram os momentos que vinham passando juntos nos últimos dias. Ela por sua vez, começou a duvidar de seus próprios sentimentos. Resolveu ir se afastando aos poucos, alegando que precisava de um tempo para si, para refletir a forma como tudo vinha se desenrolando. Ele teve compreensão, mas foi difícil segurar a saudade de apertar suas mãos.
E de repente ela se afasta de vez, começa a evitá-lo, travando uma batalha com o seu próprio coração. A emoção dizia sim, mas a razão a fazia acreditar que tudo não passava de ilusão. Para ele foi difícil se acostumar com a distância, pois no momento de se conhecer é natural que as pessoas queiram estar próximas umas das outras, para descobrirem as verdades refletidas somente pela troca dos olhares.
Estava complicado para ele aceitar aquela situação, começou até a acreditar que não pudesse mais domar seu coração. Um inexperiente no amor, que viveu um conto de fadas de três semanas. Voltou a sua realidade e também se distanciou, mas agora imaginando que ela pudesse mesmo não ser tudo o que seus olhos haviam visto.
Aí aparece um amigo, que percebendo sua tristeza, pergunta: “Quantas vezes por dia você diz à sua mãe que a ama?”. Ele responde: “Nenhuma, minha mãe já sabe que eu gosto dela”.
Para bom entendedor, meia palavra basta. Seu erro foi ter se entregado logo de cara, mesmo imaginando que ela pudesse ser a mulher de sua vida. Porém, a entrega foi tão grande que acabou assustando a amada. E alguém tira a razão dela? Acho que não, pois a partir do momento em que a pessoa sabe que você está nas mãos dela, a acomodação é natural, e ela passa a acreditar que não terá mais “surpresas” no jogo do amor que está vivendo.
Desde então, todas as noites ele recita os mesmos versos enquanto sonha com ela:
“Se estavas oculta até agora,
Nem quero saber o porquê
Prefiro acreditar em destino,
Pois parecia sonho encontrar você”.
Nesse momento, não consigo imaginar o que ela está pensando. Só sei que os dois gostam demais um do outro e precisam conversar, para tentarem uma reconciliação. Não podem jogar fora uma história digna de roteiro de cinema, com cenas de comédia romântica e momentos típicos de uma fábula melodramática. Se o destino os aproximou, tomara que ele ajude a transformar o orgulho dos dois em uma vontade de pedir perdão mútua. Mesmo porque, se ele errou ao entregar todo o seu coração, ela também pecou por não freá-lo quando passara a se assustar com tal situação.
Não escolhemos por quem vamos nos apaixonar, nem quando e muito menos onde isso vai acontecer. Mas temos de ficar sempre atentos aos sinais, pois nada é por acaso e a grande oportunidade de nossas vidas passa uma vez só pela nossa frente e, se não estivermos preparados, poderemos reclamar a vida toda por não termos achado a primeira pessoa capaz de dar vida aos nossos sonhos.